sexta-feira, 27 de março de 2009

Para a tarefa das oitavas.

E a cidade, como é que fica?

“Presídio Professor Aníbal Bruno, Curado. Doze câmaras de vigilância eletrônica, muro de seis metros de altura, cerca elétrica, nenhum sistema detector de violação. Função: retirar do convívio social pessoas que, teoricamente, representam ameaça à coletividade.
Edifício Hockenheim, Jaqueira. Dezesseis câmaras de vigilância eletrônica, muro de oito metros de altura, sistema infravermelho com sete pontos de detecção, acionamento remoto de patrulha de segurança. Função: proteger seus moradores de pessoas como as que se encontram no Aníbal Bruno.”[1]


O texto acima exemplifica bem o que vem acontecendo com as nossas cidades. Atualmente elas estão passando por um processo de mudança de organização social, gerando novas formas de relacionamento e novos desenhos no espaço urbano, enfim, o que muitos autores denominam de segregação espacial.

Na busca por proteção e segurança, os moradores das grandes cidades passaram a adotar soluções privadas de proteção e passam a se “aprisionar” em suas casas e, progressivamente, (diante do sentimento de insegurança da cidade) abandonam o espaço público. No entanto, esse tipo de reação imediatista, individualista e anti-social só alimenta mais a violência e, conseqüentemente, a insegurança.

Um bom exemplo disso são os "condomínios exclusivos”, com maior difusão no Rio de Janeiro e São Paulo. Esses oferecem dentro de seus muros, além de comércio, serviços e lazer, o fator segurança. Porém, não só “encarceram” seus moradores como acentuam a desconfiança de quem está do lado de fora.

Em Recife, esses condomínios começam a ganhar espaço no mercado imobiliário não só para as classes mais abastadas como também para as classes médias, como no caso dos modelos Morada Recife Antigo e os condomínios de Aldeia. Além disso, os espaços dito públicos começam a sofrer transformações desastrosas.

Muitas ruas estão se tornando conjuntos de fortalezas. Um caso bastante interessante encontramos no bairro da Jaqueira, onde um conjunto de ruas que cercam a Praça Fleming é uma verdadeira “vitrine” do modelo de arquitetura do medo.Existe um conjunto de prédios para a classe média alta onde os muros altos, grades e as câmaras de segurança já não são mais eficientes. Pelo menos um deles é provido de detectores que, ao sinal de pessoas próximas a portaria do prédio, acedem luzes de alerta.


O reflexo do medo na arquitetura não se apresenta apenas nas fachadas, ele também está presente nas plantas dos edifícios. Nos pavimentos térreos dos prédios, novos elementos vão sendo incorporados, as guaritas já não suficientes, o visitante tem que ultrapassar vários "obstáculos" até chegar ao hall social.

Um exemplo disso é um edifício residencial localizado no bairro Ilha do Retiro. Até chegar ao hall social do prédio, o visitante tem que passar por três portões e uma porta. Entre o segundo e o terceiro portão, o visitante tem que ficar em uma "gaiola", sempre sendo filmado por câmaras de TV.


Quem está dentro e quem está fora?

Depois de toda essa demonstração de “segurança”, vem a pergunta: essa segurança está a favor de quem e contra quem? Quem está dentro e quem está fora do processo?

O “novo modelo” de arquitetura e, conseqüentemente, de cidade produz edificações que trazem consigo o fenômeno e a forma do "aprisionamento" e da "murificação". Os cidadãos tornam-se prisioneiros em suas próprias casas e as ruas se transformam em extensos corredores murados. A sociedade passa a ser dividida em dois mundos: os de dentro e os de fora, os "protegidos" e os desprotegidos, os seguros e os possíveis suspeitos. Simbólica e fisicamente, essas “táticas de segurança” atuam da mesma forma: estabelecem diferenças, divisões e distâncias, estabelecem regras de evitação e exclusão.

Tudo isso gera um processo da não-identificação com o lugar. Os excluídos vêem através dos muros a concretização do símbolo da exclusão. “Ele vê os símbolos da exclusão na sua frente e não tem acesso a nada... A violência é a forma que ele encontra de combater uma violência ainda maior: a invisibilidade social” (Gilberto Dimenstein, 1999).

Por outro lado, “quem está dentro” também sofre uma agressão. Existe violência maior, socialmente, do que construir um muro para viver melhor?

Então...

Quando a cidade passa a ter seus espaços públicos marcados pela exclusão, ela nunca poderá ser uma cidade segura. Quando existirem pessoas com mais direitos à cidade do que outras, ela nunca será segura.

Então, a luta pelo direito à cidade, por uma cidade igualitária social e espacialmente, onde todos tenham acesso à moradia, ao solo, ao transporte, à educação, à saúde, ao lazer, enfim, acesso à cidade, também é a luta por direito à segurança e à cidade segura.

[1] Diário de Pernambuco, outubro de 2001.

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