quarta-feira, 8 de abril de 2009

Mais uma sugestão da Fernanda


Deus decepção


Eu,
Cheio de preconceitos,
Racista!
Eu, com falsos conceitos
Neo-nazista!
Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração,
Eu, pedindo um coreto
Gritando "separação!"
Eu, você, nós...nós todos.
Cheio de preconceitos
Fugindo como se eles carregassem lodo.
Lodo na cor...E com petulância,
Arrogância,afastando a pele irmã
...mas,
...estou pensando agora:
E quando chegar minha hora ?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã ?
Numa viagem esquisita,
Entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá ?
E um porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei,
Viesse abrir a porta,
E eu reparasse na sua vista torta,
Igual aquela que critiquei?
Se sua mão torteasse pelo trinco,
Como as mãos do cego que não ajudei ?
Se a porta rangesse,
Chorando os choros que provoquei ?
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei ?...
E me levasse por um corredor florido,
Colorido...
Com as flores que eu jamais dei ?
Se eu sentisse o chão frio,
Como nos presídios que não visitei ?
Se eu visse as paredes caindo,
...e se a criança tirasse corpos do caminho,
Corpos que não levantei
Dando desculpas que eram bêbados, mas não eram
epiléticos,
Que era vagabundagem, mas era fome!
Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome
E se mais para frente a criança cobrisse o corpo nu,
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei?...
Corpo de alguém exposto,
Jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão,
Porque no amor fiz pausa
E dei, sei lá, só dei desgosto.
E no fim do corredor o início da decepção!
Que raiva! Que desespero!
Se visse o mecânico,o operário,
Aquele vizinho, o maldito funcionário
E até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê?...
Ah! Sei sim, riem da minha decepção
Deus não está vestido de ouro,
Mas como ???
Está num simples trono.
Simples como não fui,
Humilde como não sou.
Deus decepção!
Deus na cor que não queria
Deus, cara a cara, face a face
Sem aquela imponente classe
Deus simples! Deus negro!
Deus negro ?
E eu racista, egoísta
E agora ?
Na terra só persegui os pretos,
Não aluguei casas,não apertei a mão.
Meu Deus,você é negro,que desilusão!
Será que vai me dar uma morada ?
Será que vai apertar a minha mão ?
Que nada!!
Meu Deus você é negro,que decepção!
Não dei emprego,virei o rosto.
E agora ? Será que vai me dar um canto?
Vai me cobrir com seu manto?
Ou vai virar o rosto no embalo
Da bofetada que dei ???
Deus, eu não podia adivinhar...
Por que você se fez assim ?
Por que se fez preto ?
Preto como engraxate,
Aquele que expulsei da frente de casa ?
Deus pregaram você na cruz
E você me pregou uma peça
Eu me esforcei à beca
Em tantas coisas,e cheguei até pensar em amor
Mas nunca ...
Nunca pensei em adivinhar sua cor!


(Neimar de Barros)

Um comentário:

  1. Oi, Maira! Bonito o poema e a foto que o acompanha! Se as pessoas soubessem o tanto que é enriquecedor se aproximar do outro "diferente" sem preconceitos, simplesmente deixando-se levar pelo prazer de aprender algo novo, não haveria racismo nem xenofobia. Seríamos muito mais tolerantes, com certeza. Beijos. Sandra M. P.

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