quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Guardião de Memórias de Kim Edwards e mais Na Praia e De Caso com o Acaso


Em 1964, as coisas eram muito diferentes. A medicina ainda andava a passos lentos, muitos dos aparelhos que hoje fazem parte do cotidiano de clínicas e hospitais não existiam, os diagnósticos eram precários e pouco se sabia sobre algumas doenças.
É nesse ano que o médico ortopedista David Henry é obrigado, durante uma nevasca intensa, a fazer o parto de seu próprio filho, auxiliado apenas pela enfermeira Caroline Gill.
"Paul se for menino, Phoebe se for menina" tinha lhe dito sua esposa Norah antes de perder os sentidos. Veio Paul, bonito, forte e saudável, mas o menino foi inesperadamente seguido por uma irmã gêmea, Phoebe.
A surpresa, no entanto, não foi bem recebida por David, que percebeu de imediato que a filha era portadora da Síndrome de Down. Nessa época, isso significava um coração frágil e, provavelmente, uma morte precoce. Quando criança, David tinha perdido sua irmã June por causa do coração e seus pais nunca se recuperaram da perda, o que lhe causou cicatrizes profundas que ele não queria reabrir. Vendo June em Phoebe e a sua mãe em Norah, ele toma a decisão que mudaria a vida de todos ali presentes para sempre: pede a Caroline que leve Phoebe a uma instituição, onde ela morreria longe de seus olhos e diz a Norah que a filha nasceu morta.
Caroline não tem coragem de abandonar a menina e foge com ela para cria-la como se fosse sua. (Achou isso um pouco familiar? Eu também. Será que Manoel Carlos se inspirou nesse livro para criar a novela Páginas da Vida?)
Mas enquanto Caroline trava enormes batalhas para garantir a saúde e uma vida normal para Phoebe, Norah tenta lutar contra a depressão que se abateu sobre ela. Depressão também não era entendida nessa época e as mulheres não questionavam muito seus maridos, então ela sofre calada vendo um muro cada vez maior se construir entre os dois.
David, consumido pela culpa, nunca mais consegue ser o mesmo e não consegue resgatar Norah de sua tristeza. Por sua vez, Paul cresce sentindo-se confuso e enraivecido pela situação em que seus pais vivem e não consegue se relacionar com o pai.
O destino dessas cinco pessoas permanecerá entrelaçado em torno dessa mentira, no entanto, essa não é simplesmente a história dessas relações, mas, sim, do poder devastador de uma decisão impensada.

Ainda, sobre o poder nefasto das decisões impensadas e sobre como o mundo era diferente na década de 60, você pode ler também o livro "Na Praia" de Ian McEwan que conta a história de um casal que, em sua noite de núpcias na praia, está prestes a viver uma experiência para a qual nenhum dos dois havia sido preparado: sua primeira vez. Em 1962, no limiar da mudança de costumes, véspera da revolução sexual, essa experiência não era nem um pouco simples e ambos sentiam a pressão de seu desconhecimento. Ele, ansioso, ela, amedrontada. Coisas serão ditas, orgulhos serão feridos e uma decisão tomada no calor do momento vai mudar o rumo dessa relação. Não é um livro divertido, cheio de aventuras ou coisa do tipo, é mais para se refletir sobre o real valor do orgulho e sobre como o momento cultural pode influenciar nossas vidas. Funciona como uma espécie de cápsula do tempo, para a gente ver como as coisas já foram diferentes. Talvez para mais tarde na vida, mas fica a indicação.


Mais uma indicação sobre o tema dos momentos decisivos da vida: o filme De Caso com o Acaso (Sliding Doors). Nele, duas histórias se desenvolvem paralelamente mostrando como teria sido a vida da personagem de Gwyneth Paltrow se ela tivesse conseguido pegar o metrô a tempo e se não tivesse. Vale a pena!

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