segunda-feira, 9 de julho de 2012

Parabéns para mim...






Eu nasci há dez mil anos atrás. Não, não faz tanto tempo assim, mas quem nasceu no ano que eu nasci entendeu a brincadeira.

Eu nasci numa galáxia muito, muito distante... chamada Anos 80. Faz tempo!

Lá, tudo era diferente. Telefone, por exemplo, servia para fazer ligações. E ele ficava presinho dentro da sua casa. Era um só para família inteira, e você poderia se considerar o maior dos privilegiados se tivesse uma extensão no seu quarto. E pior, minha gente, ele tinha fios! Um que o ligava à parede e outro, em forma de espiral, que ligava o "gancho" (a parte onde a gente falava) e o telefone em si, que era grande e meio pesado para não ser tirado do lugar com muita facilidade. Isso era bom, porque criancinha que se prezasse, adorava enfiar os dedinhos no fio espiralado e puxar tudo para baixo. Telefone sem fio era coisa que só se via na TV, na mão daquela dondoca ricaça que tinha em toda novela.

Televisão, aliás, era outra coisa grande e pesada (eu sei bem disso, porque quando era criança consegui cair com uma em cima das minhas pernas!) e que, em geral, só tinha uma na casa inteira. Nela, a gente só assistia canais abertos, oh, desespero. E era bom não ter muita opção, porque quando você queria mudar de canal, tinha que levantar do sofá, porque não existia controle remoto. Meu Deus, que barbárie!

Outra coisa que não existia eram canais que passassem desenhos o tempo inteiro. Nós, crianças, tínhamos horário específico para curtir Os Smurfs, Muppets Babies e o He-Man, que dava conselhos sobre tudo, até como se proteger da pedofilia. (Duvida? Veja aqui. ) Se você perdesse a hora do desenho, acabou, não tinha reprise, tinha que ficar para amanhã. Aí, depois a gente ia brincar com os amigos, na rua ou no quintal. Oh, coisa antiquada!

Ir ao cinema era um evento e todo mundo queria ter um vídeo-cassete e conta na locadora. Não se vendia filmes nos camelôs e nem mesmo nas lojas normais. Se você gostasse muito de um filme, tinha que torcer para passar na televisão  e você poder gravar, dando pause nos intervalos. Ou, se você fosse fuçado, podia tentar arranjar alguém que soubesse conectar dois vídeos-cassetes e gravar o filme para você numa fita "virgem". O cúmulo da pirataria!
Aliás, naquela época, piratas eram aqueles de tapa olho. E a gente sabia do mundo só o que passasse na TV, ou o que viesse escrito nos livros e jornais, que eram de papel mesmo. Não era uma coisa ruim como pode parecer, porque havia inocência o suficiente para a gente sonhar que o amor podia ser como em Dirty Dancing, ou que a vida podia ser divertida como em Curtindo a Vida Adoidado.

Nossos amigos, a gente encontrava na rua mesmo, na escola, na praça., porque não tinha nada disso de Facebook ou Orkut. E se alguém quisesse compartilhar uma foto sua, tinha que pegar o negativo emprestado e mandar revelar. A gente comprava um filme, punha na máquina, tirava as fotos sem ter noção de como elas sairiam, e pagava para revelar, ou seja, pôr a foto no papel, não importa se tinha saído de olho fechado, cara suja de bolo ou fazendo careta. A gente tinha um montão de fotos horríveis por causa disso.

Aliás, fotos horríveis e cabelos ultra-bregas eram o máximo que a gente tinha para se envergonhar nessa época, em que ficar era só um sinônimo de permanecer, e um beijo era muito mais do que trocar cuspe com alguém.


Não existia Internet e se você quisesse saber em que alguém estava pensando, tinha que perguntar. Computador mesmo, era uma coisa de Star Trek que, naquela época, se chamava Jornada nas Estrelas. Star Wars era Guerra nas Estrelas, Winnie the Pooh era o Ursinho Puff e a gente era feliz em português mesmo. OMG, eu me pergunto como isso era possível!

A gente podia ver De Volta para o Futuro, ET e Indiana Jones sem se preocupar  com os absurdos científicos ou antropológicos dos filmes, porque, naquele tempo, a imaginação tinha permissão para reinar sobre a razão.

O rock também reinava. A gente ouvia hard-rock americano, punk-rock inglês e o rock de Brasília aqui nas nossas bandas. E o cúmulo da rebeldia era um garoto deixar o cabelo crescer e colocar uns brincos, como os roqueiros. As vizinhas falavam mal, mas era legal. Não tinha nenhum hipócrita dizendo que aquilo era música do capeta enquanto rebolava ao som de um funk.

Eta, tempo bom, meu Deus!

Mas eu não estou me lamentando. Novos tempos vieram e com eles muitas coisas boas e ruins, como em todos os tempos. Mas eu continuo aqui. Os quilinhos que chegam já não são tão fáceis de perder, algumas coisas já não são tão fáceis de aceitar. Aos 31, eu já preciso me despedir definitivamente da dezena dos 20. Aos 30, eu ainda tinha um pezinho lá, agora não dá mais. Também perdi o charme da referência literária: não posso mais dizer que sou uma balzaquiana. Afinal, Balzac não escreveu nenhum livro chamado "A Mulher de 31 Anos"!

Mas tudo bem, novos horizontes se descortinam à minha frente agora que os desconhecidos me chamam de "senhora" ao invés de "moça". Ser mulher é mais legal do que ser moça.

O mundo corre ligeiro, mas eu estou acompanhando, a passos mais lentos, mas estou. Porque o tempo não para. Nem eu paro nele.


2 comentários:

  1. Ahhh, que legal, eu não sabia que morávamos numa galáxia tão próxima... Eu também nasci há muitos anos, 10.005 anos para ser exato, e no mesmo signo, acho que a constelação era bem próxima.
    Do negocio do telefone, para mim, o pior era ter sua mãe sabendo o quem ligava para você... Enquanto falava com uma menina que seus pais não conheciam, o interrogatório estava sendo arranjado logo... Que droga... Mas também era bem legal esperar com emoção pela chamada de alguém especial, a gente nessa galáxia sideral não tinha BB, whatapp, facebook, email, torpedos.. e tinha que combinar ate para falar pelo telefone (essa droga com fios que as vezes era no mesmo quarto da TV, não era uma conversa privada, era um big brother sem câmeras, você falando e sua família comentando e fofocando, como se fosse uma novela), sua desesperança quando ela não chamava, e como seu coração batia forte de novo quando o telefone soava...e ao grito de “ninguém pegue, essa chamada é minha!!!” saia correndo do seu quarto pra apanhar o telefone antes do que ninguém...e nem sempre era para você, mas quando era...
    Uma boa galáxia, bons tempos, mas o tempo faz a gente esquecer a coisas ruins e lembrar as boas. A memória funciona desse jeito, no curto prazo lembramos com mais fortaleza a coisas ruins, mas com o passar do tempo, a gente se lembra das coisas boas melhor... e isso não quer dizer que todos os tempos passados fossem melhores... Porem, que galáxia tão boa, né?
    Adorei esta entrada do Blog, muitas lembranças, alem dos alunos da pra aprender dela professora também. Parabéns pelo blog e pelo aniversario!
    Até a próxima entrada!
    FER
    PS : Você percebeu no meu jeito de escrever a influenza duma professora paulista? Muito esperta, né?... ;) Peço perdão, meu português ainda não é muito bom. Comecei a estudar há pouco tempo... pelo menos minha professora foi ótima e me ensinou bem.

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  2. É mesmo, Fernando. Tentar ter um pouco de privacidade para receber uma ligação especial era uma verdadeira aventura. Era mesmo uma galáxia muito especial e diferente. Mas a gente era feliz nela, não é?
    O bom das lembranças é que dá para voltar para elas a qualquer hora...
    Obrigada pelo comentário e pelo parabéns. Não se preocupe com o português. Está ótimo! Sua professora é mesmo muito esperta! Também aprendi muito com ela.
    Spoiler: em sua homenagem vou colocar uma música aqui no blog nos próximos dias. Aí você vai entender o começo to texto melhor.

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