domingo, 2 de dezembro de 2012

Música que Cala


Estava de janela, mas não podia ir embora. Nada pra fazer (pelo menos nada que eu quisesse) e ninguém pra conversar.
Resolvi me trancar no carro com um livro e o som ligado. A manhã está fresca e as folhas caem devagar sob a luminosidade suave. É um alívio que o sol ainda não esteja forte e opressor, como ficará em poucas horas. A ideia de deitar o banco, tirar os sapatos e descansar a cabeça é convidativa e eu me permito.
Exceto pela visão, trancar-se no carro é quase como uma privação de sentidos. Você fica meio fora do mundo normal, dentro de um pequeno mundo à parte, coisa que aprecio bem mais do que deveria.
E há algo inteiramente intoxicante em se ouvir música dentro de um carro parado e fechado. Quer dizer, eu entendo tanto de propagação do som quanto entendo do coração dos homens. Tenha apenas um palpite mal-educado de como ambos funcionam. Mas tenho a impressão de que o som bate nos vidros e volta com tudo pra você, como num jogo ou numa luta onde você realmente quer estar. É deliciosamente agressivo, mas às vezes é mais suave que isso. Às vezes é só um carinho que te percorre.
Eu estava recostada no banco, lendo. Minha mente já num estado praticamente alheio à realidade, apenas vagamente ciente do relógio que marcava o momento de voltar para o mundo real. É quando David Cook, com aquela voz que fala comigo em idiomas só reconhecíveis pelo coração, anuncia que fará um cover de Radiohead, High and Dry.
“Tudo bem”, penso. “Já ouvi isso antes e nem é dos meus preferidos. Nada de especial.”
Nem descolo a mente do meu livro para constatar vagamente que David parece cansado, sua voz soando excepcionalmente séria, mesmo quando ele graceja para o fã que aplaude fora de hora. Tiro um segundo para apreciar o fato de que aquele jeito mais tranquilo de falar parece combinar com o tom melancólico da música que está por vir, e outro segundo para constatar que gosto dessa nova nuance da voz que ouço todos os dias. Depois volto para o livro, sem apostar que algo possa chamar minha atenção antes do fim daquela música.
Mas David e Radiohead são uma combinação traiçoeira. A música é sinuosa e sorrateira e vai encontrando lugares desconhecidos em mim onde ressoar. E a voz dele tem aquela rouquidão deliciosa que me faz ter a impressão de que ela se desfaz dentro de mim em milhares de pedacinhos microscópicos que passam a circular pelo meu sangue.
Num instante estou tomada! A música faz coisas com meu sangue que músicas não deveriam fazer com sangues. Deixo o livro de lado e fecho os olhos, assaltada por um amor violento, basal e primitivo pela solidão!
Sinto-me embalada por aquela música que funciona como uma canção de ninar que me tira do mundo real e me faz sentir tão sozinha que consigo ouvir minha própria voz. Não aquela voz articulada, filtrada pela linguagem e pelas noções sociais de certo e errado das quais raramente consigo me livrar. Mas o tipo de coisa intrínseca e verdadeira que só ouço quando tudo o mais se cala, inclusive eu. E tudo estava calado no meu mundo particular dentro do carro, onde apenas se ouvia David cantando Radiohead.
A música acaba e eu acordo do meu devaneio. Olho no relógio e percebo que está quase na hora. “É melhor eu ir.” Ponho a música no repeat e a escuto novamente mais tarde, enquanto volto para casa. Não é a mesma coisa, mas está cheia de promessas. É uma chave para um lugar até então inabitado. Só que agora eu sei como entrar.

Para textos desse tipo, visite meu Tumblr: http://diletantediario.tumblr.com/

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