Estava de janela, mas não podia
ir embora. Nada pra fazer (pelo menos nada que eu quisesse) e ninguém pra
conversar.
Resolvi me trancar no carro com
um livro e o som ligado. A manhã está fresca e as folhas caem devagar sob a
luminosidade suave. É um alívio que o sol ainda não esteja forte e opressor,
como ficará em poucas horas. A ideia de deitar o banco, tirar os sapatos e
descansar a cabeça é convidativa e eu me permito.
Exceto pela visão, trancar-se no
carro é quase como uma privação de sentidos. Você fica meio fora do mundo
normal, dentro de um pequeno mundo à parte, coisa que aprecio bem mais do que
deveria.
E há algo inteiramente
intoxicante em se ouvir música dentro de um carro parado e fechado. Quer dizer,
eu entendo tanto de propagação do som quanto entendo do coração dos homens. Tenha
apenas um palpite mal-educado de como ambos funcionam. Mas tenho a impressão de
que o som bate nos vidros e volta com tudo pra você, como num jogo ou numa luta
onde você realmente quer estar. É deliciosamente agressivo, mas às vezes é mais
suave que isso. Às vezes é só um carinho que te percorre.
Eu estava recostada no banco,
lendo. Minha mente já num estado praticamente alheio à realidade, apenas
vagamente ciente do relógio que marcava o momento de voltar para o mundo real. É
quando David Cook, com aquela voz que fala comigo em idiomas só reconhecíveis
pelo coração, anuncia que fará um cover de Radiohead, High and Dry.
“Tudo bem”, penso. “Já ouvi isso
antes e nem é dos meus preferidos. Nada de especial.”
Nem descolo a mente do meu livro
para constatar vagamente que David parece cansado, sua voz soando
excepcionalmente séria, mesmo quando ele graceja para o fã que aplaude fora de
hora. Tiro um segundo para apreciar o fato de que aquele jeito mais tranquilo
de falar parece combinar com o tom melancólico da música que está por vir, e
outro segundo para constatar que gosto dessa nova nuance da voz que ouço todos
os dias. Depois volto para o livro, sem apostar que algo possa chamar minha
atenção antes do fim daquela música.
Mas David e Radiohead são uma
combinação traiçoeira. A música é sinuosa e sorrateira e vai encontrando
lugares desconhecidos em mim onde ressoar. E a voz dele tem aquela rouquidão
deliciosa que me faz ter a impressão de que ela se desfaz dentro de mim em milhares
de pedacinhos microscópicos que passam a circular pelo meu sangue.
Num instante estou tomada! A
música faz coisas com meu sangue que músicas não deveriam fazer com sangues.
Deixo o livro de lado e fecho os olhos, assaltada por um amor violento, basal e
primitivo pela solidão!
Sinto-me embalada por aquela
música que funciona como uma canção de ninar que me tira do mundo real e me faz
sentir tão sozinha que consigo ouvir minha própria voz. Não aquela voz
articulada, filtrada pela linguagem e pelas noções sociais de certo e errado
das quais raramente consigo me livrar. Mas o tipo de coisa intrínseca e
verdadeira que só ouço quando tudo o mais se cala, inclusive eu. E tudo estava
calado no meu mundo particular dentro do carro, onde apenas se ouvia David cantando
Radiohead.
A música acaba e eu acordo do meu
devaneio. Olho no relógio e percebo que está quase na hora. “É melhor eu ir.” Ponho
a música no repeat e a escuto novamente mais tarde, enquanto volto para casa.
Não é a mesma coisa, mas está cheia de promessas. É uma chave para um lugar até
então inabitado. Só que agora eu sei como entrar.
Para textos desse tipo, visite meu Tumblr: http://diletantediario.tumblr.com/
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