Aí você está com a cara enfiada no livro e um sorriso insistente estampando no rosto, quando alguém te pergunta: Mas sobre o que é essa história, afinal?
"Hum..." Você pensa um pouco. Não é tarefa fácil explicar tudo em poucas palavras. Então você se prepara para um explicação detalhada, respira fundo e se sai com uma coisa mais ou menos assim:
Tem esse garoto chamado Colin que é um prodígio, mas está frustrado porque o que ele queria mesmo era ser um gênio. Ele tem só dezessete anos, mas acha que não é importante porque nunca foi capaz de criar nada, nem ter nenhuma ideia que fosse realmente notável. Além disso, ele acabou de se formar no Ensino Médio e não sabe o que fazer do futuro que se estende diante dele. Para piorar tudo, ele acabou de levar o seu décimo nono pé na bunda, todos eles dados por garotas chamadas Katherine, porque ele só namora meninas com esse nome.
A K-19, como ele chama a ex da vez, era a que ele considerava o amor de sua vida, por isso ele está muito deprimido.
É então que seu único amigo, Hassam, o convence a partir numa viagem de carro (o Rabecão de Satã, rsrs) pelo país. Com custo os pais de ambos autorizam a aventura e eles saem sem destino, até chegarem a uma cidadezinha no interiorzão do Tennessee com o bizarro nome de Gutshot.
Lá eles conhecem uma garota chamada Lindsey Lee Wells e sua mãe, Hollis, que é praticamente dona da cidade. Hollis convida os meninos a morarem em sua Mansão Cor de Rosa e dá a eles um emprego meio fajuto, porque acha que eles serão uma boa influência para sua filha, temporariamente distraída com um namorado porcaria.
Nesse meio tempo, Colin decide que sua maneira de se tornar importante para a humanidade é criar uma fórmula matemática que preveja a duração de relacionamentos amorosos. Ele chama isso de Teorema Fundamental da Previsibilidade das Katherines, por isso o nome do livro em português (em inglês o nome é An Abundance of Katherines).
Você fala tudo isso num fôlego só, mas respira de novo a tempo de ver a expressão meio confusa, meio decepcionada de seu interlocutor. Então, mais do que depressa, você emenda:
- É do mesmo autor de A Culpa é das Estrelas.
O que é um excelente argumento se a pessoa já leu esse livro e pode ser um game changer nessa conversa, mas se ela não leu, vai dizer algo como "hum, aham" e mudar de assunto rapidinho.
Você volta para casa pensando na conversa e percebe que devia ter dito:
a) que Colin é ao mesmo tempo patético e adorável e você quer que ele tome uma lições da vida, mas também quer pegá-lo no colo de vez em quando, e que quase dá pra ver seus olhos muito verdes analisando tudo por trás das lentes de seu óculos.
b) que Hassam te faz rolar no chão de tanto rir e que dá pra imaginar sua voz de meninão chamando o Colin de kafir enquanto assiste TV com seus olhos castanhos de sobrancelhas grossas e cílios espessos (eu imagino ele assim).
c) que Lindsay é uma personagem rica, complexa e brilhante e você quer muito vê-la sorrir pra você enquanto explica o mundo ao Colin com seu adorável sotaque sulista.
d) que você quer dar uma passadinha em Gutshot, lá onde o arquiduque Francisco Ferdinando perdeu as botas, e fazer uma pausa para o almoço no Taco Hell.
e) e que Hollis esconde segredos dolorosos nas paredes cor de rosa de sua mansão e que o mundo não vai se transformar num lugar onde as Katherines voltam para os Colins, mas esse é um livro que você lê o tempo todo com um sorriso no rosto. O tempo todo.
Talvez essa história não cative tantos fãs como A Culpa é das Estrelas. Não é fácil competir com Hazel, Gus, Amsterdã e um amor que cresce diante da iminência da morte, mas, quanto a mim, não resta mais a menor dúvida de que lerei cada parágrafo publicado sob o nome de John Green.
Não acho que cessará em mim o encanto de um autor que cria personagens tão inteligentes e maduros diante de dilemas como a imprevisibilidade do futuro, a importância da relevância pessoal em contraste com o que se pode fazer pelos outros, a inevitabilidade da morte e do esquecimento... e, ainda assim, não os deixa perderem a arrogância ingênua da adolescência. Isso torna tudo tão leve, que é difícil acreditar que você refletiu tanto sobre a vida junto com personagens tão jovens. Mas o fato é que você faz isso sem conseguir descolar a risada boba da cara.
Ei, John, sou sua fã, cara!


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