sábado, 15 de fevereiro de 2014

Poema do TOC



Neste vídeo, o poeta Neil Hilborn interpreta um texto seu, onde um homem com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) se apaixona. Suas "manias" passam a caber perfeitamente bem na dinâmica do relacionamento, até que não mais.
Mas como esquecer e seguir adiante quando lembrar de cada detalhe obsessivamente faz parte de quem ele é?
Não tem uma única vez que eu assista a esse vídeo que eu não me emocione. É tão desesperado, triste e visceral (caramba, como eu gosto dessa palavra!) que mexe com coisas dentro de mim que não deveriam ser mexidas. Mas, bem, quem disse que quando você encontra um vespeiro e sabe que a coisa certa a se fazer é se afastar dele, é isso que você faz?
Então, como as legendas estão um tanto quanto rápidas (para poder acompanhar o ritmo desenfreado da apresentação, coerente com o estado de espírito do eu-lírico), resolvi fazer uma tradução do poema OCD. Os versos em destaque são os que eu acho mais bonitos e há algumas observações particulares em verde-água, azul ou sei lá que cor é essa.
Leia, por favor, mas assista ao vídeo primeiro.

A primeira vez que a vi...
Tudo em minha cabeça ficou quieto .
Todos os tiques, todas as imagens incessantemente recorrentes  simplesmente desapareceram.
Quando você tem Transtorno Obsessivo Compulsivo, você nunca tem momentos de verdadeira tranquilidade.
Mesmo na cama, eu estou pensando:
Será que eu tranquei as portas? Sim.
Lavei minhas mãos? Sim.
Será que eu tranquei as portas? Sim.
Lavei minhas mãos ? Sim.
Mas quando eu a vi, a única coisa em que conseguia pensar era na curva de seus lábios
Ou no cílio em sua bochecha —
o cílio em sua bochecha —
o cílio em sua bochecha.
Eu sabia que tinha que falar com ela.
Eu a convidei para sair seis vezes em trinta segundos.
Ela disse que sim depois da terceira vez, mas nenhuma delas me parecia a certa, então eu tinha que continuar.
No nosso primeiro encontro, eu passei mais tempo organizando a minha refeição por cor do que de fato comendo, ou falando com ela...
Mas ela adorou.
Ela adorava que eu tivesse que lhe dar dezesseis beijos de despedida ou vinte e quatro, se fosse numa quarta-feira.
Ela adorava que eu demorasse uma eternidade para andar até em casa, porque há muitas rachaduras na nossa calçada.
Quando fomos morar juntos, ela disse que se sentia segura, ninguém jamais iria nos roubar, porque eu definitivamente tranquei a porta dezoito vezes.
Eu sempre observava sua boca quando ela falava —
quando ela falava —
quando ela falava —
quando ela falava —
quando ela falava —
quando ela dizia que me amava, sua boca se curvava um pouco nos cantos.
À noite, ela se deitava na cama e me assistia apagar todas as luzes... E acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar.
Ela fechava os olhos e imaginava que os dias e as noites estavam passando na frente dela.*
Em algumas manhãs, quando eu ia começar a beijá-la em despedida, ela simplesmente ia embora, porque eu a estava fazendo atrasar-se para o trabalho.
Quando eu parei na frente de uma rachadura na calçada, ela simplesmente continuou andando...
Quando ela disse que me amava, sua boca era uma linha reta.**
Ela me disse que eu estava tomando muito do seu tempo.
Na semana passada, ela começou a dormir na casa da mãe.
Ela me disse que não deveria ter me deixado ficar tão apegado a ela, que tudo isso foi um erro, mas...
Como pode ser um erro se eu não tenho que lavar as mãos depois de tocá-la?
O amor não é um erro, e isso está me matando, que ela possa fugir disso e eu simplesmente não possa.
Eu não posso — eu não posso sair e encontrar alguém novo, porque estou sempre pensando nela.***
Normalmente, quando fico obcecado sobre as coisas, vejo germes se esgueirando pela minha pele.
Vejo-me esmagado por uma sucessão interminável de carros...
E ela foi a primeira coisa linda a que eu já fiquei preso.****
Eu quero acordar todas as manhãs pensando na maneira como ela segura o volante...
Em como gira o registro do chuveiro como se estivesse abrindo um cofre.
Como ela sopra velas —
sopra velas —
sopra velas —
sopra velas —
sopra velas —
sopra...
Agora, eu só penso em quem ela está beijando.
E eu não posso respirar, porque ele só a beija uma vez — ele não se importa se é perfeito!
Eu a quero de volta tão desesperadamente que
Deixo a porta destrancada.
Deixo as luzes acesas.

OMG!

* Esse é o verso da virada. Os dias passando sempre iguais diante dela não são, simplesmente, uma metáfora. Os dias estão realmente passando, assim como o encantamento primeiro, e a realidade está se revelando muito com que lidar. A partir daí, ela não vê mais o TOC como "manias bonitinhas".

** Por causa de sua obsessão, ele é extraordinariamente observador, e percebe, mesmo sem querer, quando a mudança na maneira dela vê-lo se manifesta.

*** Eu nunca parei para pensar em como pode parecer impossível para uma pessoa com TOC superar um relacionamento amoroso. Como, quando obcecar-se é intrínseco e o ato de esquecer vai contra sua própria natureza?

**** Até mesmo o TOC se torna uma coisa mais bonita na presença do amor.

"Como pode ser um erro se eu não tenho que lavar as mãos depois de tocá-la?"
"...ele não se importa se é perfeito!"
Eu adoro tudo nesse poema, mas esses versos... Esses dois versos me deixam coisada para sempre. Sério.

Eu amo o jeito como as palavras fazem tudo, até mesmo algo tão complicado como TOC, ficar bonito. E eu adoro que exista gente capaz de fazer isso.



2 comentários:

  1. Poema bonito, eu ja cheguei a ler ele pra minha psicologa...ela achou interessante o modo como o toc pode ser extremamente perturbador, principalmente na nossa vida acadêmica e amorosa..
    sempre que posso dou uma lida no poema ou assisto o video!

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    Respostas
    1. Não posso dizer em primeira mão como é sentir-se assim, mas esse poema sempre me emociona de qualquer jeito, porque eu o acho de uma sensibilidade ímpar. Gosto demais dele também. Obrigada por comentar.

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