"— Quanto mais eu trabalho, mais percebo que os seres humanos carecem de bons espelhos. É muito difícil para qualquer um mostrar a nós como somos de fato, e é muito difícil para nós mostrarmos aos outros o que sentimos.
(...) — Mas será que isso não é porque, em algum nível fundamental, achamos difícil entender que o outro também é um ser humano tal como nós? Ou nós os idealizamos como deuses ou os dispensamos como animais.
— Verdade. A consciência não é um boa janela."
Esse é um diálogo entre dois psicológos, os pais de Quentin (mais conhecido pelos amigos como Q), o protagonista de Cidades de Papel, de John Green, e é também a maior lição que se pode tirar desse livro. Uma reflexão nada simples, não porque seja difícil de chegar a essa conclusão, mas porque é muito difícil para qualquer um, por mais racional que seja, aceitar que a gente não conhece ninguém de verdade. Que a vida é um grande labirinto de espelhos, em vez de janelas através das quais nos percebemos mutuamente. Quando olhamos para os outros e formamos nossas opiniões e sentenças sobre eles, estamos vendo mais de nós mesmos nesses julgamentos do que de fato enxergando o outro, para quem nunca se olha de um ponto de vista realista e imparcial.
É difícil, entretanto é a verdade. Um fato que Q vai perceber em sua busca pela garota que ele sempre amou sem realmente conhecer ou enxergar.
Quentin e essa garota, Margo, são vizinhos e eram amigos de infância. Mas então eles cresceram, ela se tornou a Queen Bee da escola e eleigual a todo protagonista de John Green um garoto introvertido e de poucos amigos, a rainha da escola não estando entre eles. Uma noite, porém, ela aparece em sua janela, exatamente como nos velhos tempos, e o convida a empreender com ela uma série de vinganças e planos malucos. Até que o dia amanhece, eles ficam juntos e parece que o mundo de Q finalmente encontrou seu eixo. Pelo menos até ele descobrir que ela sumiu. De novo.
Margo meio que faz isso: ela some e deixa pistas para as pessoas. Desta vez é Q quem as tem, e ele vai passar o resto do livro em busca da garota que ele vai redescobrindo e percebendo que não conhecia, mas enquanto isso, vai encontrando a si mesmo.
Os livros do John são sempre, de alguma forma, jornadas de descobrimento, e há algo de intensamente adorável em ver a personalidade dos protagonistas desabrochando enquanto a vida os obriga a crescer. Aqueles momentos que são quase brutais de tão verdadeiros e a linguagem que te engana, por que se faz passar por simples, mas acessa coisas em você que você nem sabia que estavam lá, tudo isso aparece nas páginas do livro. John é o tipo do autor que te faz rir e se comover na mesma cena, na mesma frase, e você quer isso, é quase viciante, porque bem lá no fundo, você sabe que assim que a vida é: uma sucessão de belas dores e de felicidades sofridas. Uma longa linha de momentos simples que parecem, só parecem, não importar.
Isso é o tipo de vício que não se cura. Você ama John Green uma vez. Você o entende. Aí você o ama para sempre. É assim que é as coisas são. The end.
Dito isso, preciso avisar que Cidades de Papel não é lá o livro mais empolgante que você vai ler. Terminei-o com a sensação de que é muito livro para pouca história, e talvez uma reflexão muito dolorosa para o público a que se destina em primeiro lugar. Posso falar por mim, que não sou adolescente, mas conheço a tática da autoilusão (acabei de inventar isso, mas achei que ficou ótimo!): é muito melhor achar que as pessoas entendem as pistas que você dá sobre si mesmo. É muito mais fácil pensar que você conhece o mundo e o mundo conhece você. Defrontar-se com o engano disso é difícil e talvez desnecessariamente melancólico. Não sei. Conto quando parar de me autoiludir.
Até lá, recomendo que você dê uma olhada em Cidades de Papel e resolva por si mesmo se gosta ou não. Afinal, como me ensinou Machado de Assis em Dom Casmurro, e aqui eu achei uma "lição" comum entre duas obras que não têm absolutamente nada a ver uma com a outra, livros estão mais para espelhos do que para janelas.
É difícil, entretanto é a verdade. Um fato que Q vai perceber em sua busca pela garota que ele sempre amou sem realmente conhecer ou enxergar.
Quentin e essa garota, Margo, são vizinhos e eram amigos de infância. Mas então eles cresceram, ela se tornou a Queen Bee da escola e ele
Margo meio que faz isso: ela some e deixa pistas para as pessoas. Desta vez é Q quem as tem, e ele vai passar o resto do livro em busca da garota que ele vai redescobrindo e percebendo que não conhecia, mas enquanto isso, vai encontrando a si mesmo.
Os livros do John são sempre, de alguma forma, jornadas de descobrimento, e há algo de intensamente adorável em ver a personalidade dos protagonistas desabrochando enquanto a vida os obriga a crescer. Aqueles momentos que são quase brutais de tão verdadeiros e a linguagem que te engana, por que se faz passar por simples, mas acessa coisas em você que você nem sabia que estavam lá, tudo isso aparece nas páginas do livro. John é o tipo do autor que te faz rir e se comover na mesma cena, na mesma frase, e você quer isso, é quase viciante, porque bem lá no fundo, você sabe que assim que a vida é: uma sucessão de belas dores e de felicidades sofridas. Uma longa linha de momentos simples que parecem, só parecem, não importar.
Isso é o tipo de vício que não se cura. Você ama John Green uma vez. Você o entende. Aí você o ama para sempre. É assim que é as coisas são. The end.
Dito isso, preciso avisar que Cidades de Papel não é lá o livro mais empolgante que você vai ler. Terminei-o com a sensação de que é muito livro para pouca história, e talvez uma reflexão muito dolorosa para o público a que se destina em primeiro lugar. Posso falar por mim, que não sou adolescente, mas conheço a tática da autoilusão (acabei de inventar isso, mas achei que ficou ótimo!): é muito melhor achar que as pessoas entendem as pistas que você dá sobre si mesmo. É muito mais fácil pensar que você conhece o mundo e o mundo conhece você. Defrontar-se com o engano disso é difícil e talvez desnecessariamente melancólico. Não sei. Conto quando parar de me autoiludir.
Até lá, recomendo que você dê uma olhada em Cidades de Papel e resolva por si mesmo se gosta ou não. Afinal, como me ensinou Machado de Assis em Dom Casmurro, e aqui eu achei uma "lição" comum entre duas obras que não têm absolutamente nada a ver uma com a outra, livros estão mais para espelhos do que para janelas.

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