segunda-feira, 24 de junho de 2013

Notícias do front

Se o brasileiro tivesse saído às ruas para destruí-las não teria sobrado tijolo sobre tijolo, isso é fato. Mas nos últimos dias tenho aprendido que quando algo desse tamanho surge é impossível conter sua força. Quer dizer, como não esperar que a polícia defenda (violentamente) os prédios públicos? Como não esperar que os manifestantes mostrem sua força voltando-se contra aquilo que representa fisicamente o Poder abstrato e opressor do Estado? Como não imaginar que a violência explodisse do despreparo de ambos os lados? E o que dizer do vandalismo oportunista e terrível que vem sendo usado para desclassificar os esforços da população honesta que já não aguenta mais?
Nesse momento é mais do que nunca importante que recusemos a visão ingênua (embora tão desejável) de que há protestos pacíficos. Não há. Infelizmente.
Trata-se de uma massa e as massas não podem ser controladas, por mais que a mídia pense que sim. E tem gente de todos os tipos em ambos os lados, mas a maioria é composta por pessoas pacíficas e de bem. 
Vamos nos fiar nisso é evitar a manipulação nojenta que a imprensa tem tentando fazer, mostrando só os vândalos, os bandidos e os conflitos vistos de formas parciais e editadas. E vamos continuar indo às ruas, mostrando que não esmoreceremos.
É preciso apenas nos esforçarmos para não deixar que nossos valores individuais se nublem diante da mentalidade de grupo e  que saibamos diferenciar enfrentamentos de guerras, demonstrações de poder de violência pura e simples, tomada simbólica de nosso próprio patrimônio (apenas emprestado, ou antes, temporariamente delegado aos governantes) de sua destruição. Eis minha utopia.

Segue um texto de meu aluno Roberto, que durante todos os dias de manifestação em Campinas esteve presente, fotografando, documentando e sentindo na pele os efeitos de se estar tão perto do front.


O que acontece quando a mídia desliga as câmeras

Eu participei do protesto, experimentei o cheiro amargo do gás lacrimogêneo, e consegui entender perfeitamente o que são bombas de efeito moral, é simples, quando uma delas explode, nem o mais brutamonte dos homens fica sem chorar. Mas até ai tudo perfeito, ora, o que é uma revolução sem a ação brutal do batalhão de “CHOQUE”?
A caminhada do protesto tinha como rota uma parada na prefeitura, foi tudo tranquilo, sem tumultos e sem cenas de vandalismo, porém, a caminhada não conseguiu completar a sua rota, a prefeitura estava “lacrada” por um cordão da tropa de “CHOQUE”, qualquer um que tentasse transpor essa barreira estava sujeito a ver o “Sol nascer quadrado”. Minutos depois, vi algumas pessoas indo embora, sentindo o perigo se aproximar, mal elas sabiam que estavam certas, alguns manifestantes começaram a arremessar pedras e paus contra o cordão fardado, que não demorou em mostrar o porquê de seu nome ser “CHOQUE”. Bombas explodiam e pessoas corriam, vi algumas pessoas caírem, mas ninguém com ferimentos graves. Depois de alguns minutos de confrontos, os manifestantes recuaram, esperaram o gás se dissipar e voltaram para o confronto, não mais com paus e pedras e sim com foguetes e rojões, o “CHOQUE” aprendeu nesse dia a diferença entre manifestação pacífica e “revolução armada”, poucos minutos depois e não se via mais sinais da tropa, o caminho até a prefeitura estava finalmente livre.
            A tomada da prefeitura foi um momento glorioso, os manifestantes correram em direção a ela e em poucos segundos ela estava totalmente tomada. A tranquilidade terminou instantes depois, vândalos começaram a atirar foguetes e rojões não mais contra a tropa de “CHOQUE”, mas sim contra a prefeitura, estilhaçando vidros e assustando manifestantes pacíficos. Veja bem, não sou a favor da violência gratuita, nem de destruição de patrimônio público ou privado, mas no fundo, bem no fundo, esqueci o senso comum, esqueci o “politicamente correto” e senti que não era a prefeitura que estava sob ataque, mas sim um símbolo do governo, os vândalos não tentavam destruir somente um simples edifício, tentavam destruir um símbolo.
Pense bem, o que é o governo? É o prefeito, seus secretários e vereadores? É o congresso com seus deputados e senadores? É o Supremo Tribunal Federal (STF) com seus ministros? Quem é o governo? Quem de fato tem a mão firme o suficiente para dizer quem pode e não pode? Se você pensou no presidente da república pare de ler esse texto e ligue sua TV no canal “Plim-Plim”, está quase na hora de começar a novela, e se você pensou em vários homens engravatados e de colarinhos branco está somente enganado e iludido. Como diria nossa poética Magna Carta, em seu primeiro artigo, todo o poder emana do povo, mas quem é o povo? Se o poder emana do povo, por definição lógica, o povo é o governo, o povo é a sua própria mão de ferro. Mas isso não responde a pergunta anterior, quem é o povo?
Se você pensou em uma família reunida em torno de uma mesa farta de comida, está lendo esse texto com padrões europeus. Se pensou em pessoas com dinheiro e belas casas, está lendo esse texto com perspectiva norte-americana. Se pensou em uma nação que luta por seus direitos, está mais enganado do que nunca, acabou de sair do Egito, amigo? O povo brasileiro é uma massa leiga, fácil de manipular, fácil de enganar e fácil de controlar, o gigante acordou? Que gigante? Nossa nação tem quase 200 milhões de habitantes, desses milhões apenas um (e olhe lá) foi às ruas atrás de seus direitos, mas deixa isso pra lá. Sabe o que esses protestos são? É tudo aquilo que estava engasgado na garganta do brasileiro, brasileiro esse que pode contar nos dedos a quantidade de vezes que comeu carne na vida, brasileiro que sempre viveu em periferia e não viu nenhum gigante acordar porque nunca de fato dormiu, brasileiro que acorda cedo e trabalha o dia todo para ganhar no final do mês dois salários mínimos, e também o brasileiro médio (maioria nesse caso) e, óbvio, as crianças criadas a “leite com pera e Ovomaltine”. É melhor eu parar, vão me confundir com esquerdista, e, olha que engraçado, os protestos são esquerdistas, mas não digam isso aos manifestantes, eles pensam que são movimentos apartidários e vão me chamar de fascista sem nem saber o significado de fascismo... Vamos voltar ao que interessa, é inconveniente falar de política aqui, não se esqueça de que a massa é leiga.
Depois de meia hora de depredação da prefeitura, o batalhão de “CHOQUE” voltou e voltou com rigor, várias bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo foram lançados contra os manifestantes. Dessa vez o quebra-quebra foi realmente tenso, diversos manifestantes correram e voltaram para seus postos anteriores, e foi então que o mais perigoso aconteceu, a mídia desligou suas câmeras. Sem os olhares das grandes mídias, os policiais começaram a mostrar sua verdadeira face hostil.
Enquanto centenas de manifestantes voltavam pacificamente para casa, depois dos confrontos na prefeitura, através da Av. Francisco Glicério, de encontro com a Av. Dr. Moraes Sales, para poderem chegar ao Terminal Central de ônibus, diversos camburões da polícia militar passaram despejando bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo nos mesmos. Uma cena que me pareceu muito com quando se varre o lixo para fora de casa, os manifestantes, e isso me inclui, se dispersaram o máximo possível. Depois de tanto corre-corre, consegui enfim chegar ao Terminal Central, lá havia um rapaz deitado no chão, com certa aparência de morador de rua, esfaqueado e com algumas partes do seu próprio corpo saltando para fora através do corte provocado pela lâmina, ouvi alguns múrmuros que o autor do crime fora sua própria esposa, mas não prestei muita atenção, continuei minha jornada.
Mesmo do Terminal era possível ouvir estrondos de bombas de efeito moral, sinais de que os confrontos iriam demorar a cessar, de lá caminhei até o ponto de ônibus da Av. João Jorge. No ponto de ônibus, havia por volta de 50 a 70 pessoas, fiquei por cerca de dez minutos esperando um ônibus, mas nenhum apareceu, então resolvi ir para outro ponto de ônibus, o ponto do hospital Dr. Mario Gatti, já que ele está quase fora do centro, pensei comigo, não pode haver falta de ônibus. Mas havia um “porém”, quando eu estava saindo do ponto de ônibus da Av. João Jorge, vi diversas viaturas se aproximando do ponto, achei que estavam atrás de alguns vândalos, já que era possível ouvir e ver o helicóptero da polícia dando seus shows aéreos na região atrás de alguém. Ledo engano, a polícia disparou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo em todos do ponto de ônibus. Havia pessoas no ponto que estavam paradas, esperando seus respectivos ônibus para voltarem para casa, algumas dessas pessoas nem sequer estavam na manifestação, outras estavam comendo e rindo, havia senhores e senhoras de idade, nenhum deles, a meu ver, pareciam mostrar perigo aos patrimônios públicos ou privados daquela área, mas mesmo assim as bombas foram lançadas. Houve um corre-corre e eu continue indo em direção ao ponto de ônibus do hospital, dando graças por ter saído a tempo.
Chegando ao hospital, percebi várias pessoas no ponto de ônibus, assim como no ponto anterior, decidi me aproximar e perguntar se havia algo de errado com os ônibus. De fato havia, nenhum ônibus estava em funcionamento em Campinas, não naquela região do centro, tive então que apelar, minha jornada nesse dia de revolução acabou com minha mãe dando carona, para mim e para quase todos que esperavam ônibus no ponto do hospital. O cenário que deixei para trás foi de guerra, a sensação era como se eu tivesse dado uma voltinha na Faixa de Gaza, mas eu estava feliz, foi a primeira vez que senti o peso do povo, como ele pode ser forte se unido, como consegue vencer qualquer barreira se lutar lado a lado e esquecer suas diferenças. O Brasil só mudará quando todos enxergarem isso, o poder emana do povo.

2 comentários:

  1. \o
    Obrigado por publicar meu texto, professora. É engraçado, é reconfortante escrever algo que você viveu, ainda mais quando esse relato é algo emocionante, espero ter a oportunidade de viver outras "aventuras". Obrigado novamente, professora =D

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  2. Tenho certeza de que você ainda vai poder viver e narrar grandes coisas nessa vida. Isso é só o começo.

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