quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sangue Quente



Você provavelmente já deve ter ouvido falar de um filme que, aqui no Brasil, recebeu o nome tonto de Meu Namorado é um Zumbi. E você possivelmente nem deu bola, porque, né? Convenhamos, quem vai dar algum crédito a um filme com um nome avacalhado desses?
Pois é aí que muita gente perdeu a oportunidade de assistir a um bom filme e, pior, deixou de conhecer o livro no qual ele se inspira, Sangue Quente (Warm Bodies) de Isaac Marion, que é ainda melhor (como sempre acontece com os livros que viram filme).
No começo, parece a distopia de sempre, o mundo pós-apocalíptico mais batido de todos: um que é povoado por zumbis, onde os poucos humanos que restam lutam pela sobrevivência e para, quem sabe, conseguirem fazer isso sem perderem a cabeça (ou cérebro). 
No universo desse livro, os humanos vivem em cidadelas fortificadas nos antigos estádios de futebol e seus cérebros são a iguaria mais preciosa para aquela que é agora a raça dominante no planeta: os Mortos.
Até aí nada de muito original, mas a coisa começa a mudar quando você percebe que a história é contada não como em todas as histórias do tipo, por um sobrevivente, mas sim pelo ponto de vista de um zumbi.
Tudo bem que R é um tipo estranho de zumbi que não se adéqua à sua realidade como Morto, não funciona bem no projeto de sociedade que os zumbis constituem, mas também não consegue se lembrar de como era ser Vivo. Ele não se lembra do próprio nome, apenas da primeira letra, luta para conseguir proferir algumas poucas palavras truncadas e é um acumulador, juntando souvenires do mundo de antes, como LPs de Frank Sinatra.
Há uma razão pela qual os cérebros são preciosos: as lembranças contidas neles dão aos zumbis uma espécie de "viagem", bem parecida com estar vivo por alguns segundos. Para R, é a maravilha das maravilhas, ainda mais quando ele encontra um cérebro muito especial. Ainda mais quando ele encontra um cérebro que não quer comer. Mais do que nunca quando ele conhece Perry e Julie, um casal de namorados que vai mudar a vida (ou sobrevida? O.o) de R e o curso da história do que sobrou da humanidade para sempre, para os Mortos e para os Vivos.
E como diz um amigo meu, "em todo bom livro nunca pode faltar o amigo doido" e aqui a gente tem uma dupla responsável por alguns dos melhores momentos da trama: M, o amigo de R, que é o zumbi mais engraçado, badass e esperto do mundo, e Nora, a amiga sagaz de Julie.
Esse livro é uma metáfora nada disfarçada sobre como a falta de conexões emocionais, a falta de laços com outras pessoas, vai mudando a gente. Aos pouquinhos, o mundo moderno, frio, tecnológico e rápido vai matando o que nos faz verdadeiramente humanos. E vivos.
Esquente seu sangue enquanto é tempo, meu caro leitor fantasma, antes que você vire zumbi. (E não, eu não pude deixar de provocá-lo por nunca deixar comentários. Não seria eu, blogueira carente, se não quisesse fazer uma conexão escrita com você.)

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