"É gozado como as cores do mundo real só parecem reais
de verdade quando você as videia na tela."
- Alex
Sabe aquela história que nunca te deixou exatamente curiosa,
mas que você sempre achou que, em nome de sua bagagem cultural, uma hora ou
outra deveria conhecer? E aí essa "hora ou outra" acaba virando
aquele "depois" abstrato e distante que nunca acontece? Foi assim
comigo e Laranja Mecânica de Anthony Burgess, até uma aluna muito querida me emprestar o exemplar dela e eu
ter um caso clássico de "síndrome do sapo fervido" para comentar
neste blog.
Já ouviram aquela história (horrível) de que um sapo pula
rapidinho fora da panela se você jogá-lo dentro da água quente, mas se você for
aquecendo a água aos poucos ele vai ficar lá dentro até ser tarde demais para
perceber que está sendo fervido? A imagem é perturbadora e levanta sérios
questionamentos sobre por que alguém faria isso com um pobre sapo, mas acho que
é uma boa metáfora para o que aconteceu comigo enquanto estava lendo.
Você começa com uma introdução enorme contando sobre como
Laranja Mecânica foi uma experiência inovadora de um autor minucioso, que se
empenhou por anos até construir um dialeto específico e único para a gangue de
adolescentes da qual o protagonista, Alex, faz parte; além de representar o trabalho hercúleo de uma equipe
de tradutores, empenhados em reproduzir as sutilezas culturais impressas
naquele vocabulário. Através desse texto introdutório você também entende que
os 21 capítulos simbolizam a maioridade do Alex, já que esse é um romance de
formação, e que o dialeto e todo o resto está destinado a produzir, ao mesmo
tempo, estranheza e familiaridade suficientes para você achar que aquele é um
futuro possível, mas talvez (você reza) seja só um exagero. Depois você inicia
a leitura do livro mesmo, tentando não consultar o glossário na parte de trás
(que, aliás, o autor nem queria que tivesse) para manter o efeito de
estranhamento pretendido.
Você acha o Alex desprezível como ele de fato é e fica
chocado (um pouco ou muito, a depender de quantos episódios de Criminal Minds
você já viu) com a violência de que ele é capaz, mas olha só o verdadeiro choque:
você não o odeia.
“[...] Alex é mau, depravado, anárquico, um monstrinho puro,
e a pureza de sua maldade ilumina seus atos como um halo grotesco. [...] O
livro narra seu conflito com o Estado, que remove sua capacidade de escolha.” –
The New York Times
Aquele maldito narrador em primeira pessoa, podre até a
última molécula, mau como poucos protagonistas que você já conheceu, ou talvez
o pior de todos por ser tão jovem, te envolve e te força a enxergá-lo. Você
sabe que ele é um monstro, mas em certo ponto, quando ele começa a receber o
justo pagamento por suas ações, vocês já têm uma conexão, uma linguagem em
comum com a qual, nesse momento da história, você já se naturalizou (depois de
trapacear algumas vezes e dar uma olhadinha básica no glossário). Isso te torna
a única pessoa capaz de entendê-lo e não se pode menosprezar o efeito disso.
Exceto pelo leitor, a quem ele se dirige direta e intimamente, Alex está
completamente sozinho em sua dor e você não consegue se furtar a fazer-lhe
companhia, ou mesmo a querer que tudo acabe bem para ele. Quando você percebe,
aquele autor sacana ferveu você. Fim. Não tem o que fazer.
Talvez eu não devesse entregar o efeito, mas achei
necessário para fazer você entender que, fora a espiadinha ocasional básica,
você NÃO DEVE MESMO consultar o glossário. A linguagem é a principal macumba o
artificio mais importante do livro, e seu processo de naturalizar-se com ela é
o que te puxa para dentro da história. Aliás, falando em história, eu nem vou
contar sobre o que é, porque acho que já falei demais, mas é assim: tem
violência, tem crítica, tem o mau pagando pelo que fez e tem você se
questionando sobre a importância da escolha e a natureza da maldade e da
bondade. Acho que não precisa mais para você entender que o livro faz assim com
a sua cabeça:
Junto com 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de
Aldous Huxley, Laranja Mecânica de Anthony Burgess compõe a Santíssima Trindade
das Distopias. Isso, por si só, já o torna imperdível. Mas apesar dos dois
primeiros serem maravilhosos, um intenso, o outro reflexivo, Laranja tem um
pouco de cada uma dessas características e algo mais. Ele é a verdadeira
definição de horrorshow, uma palavra que por mais que você olhe no glossário,
só vai entender mesmo depois de dividi-la com Alex pelos 21 capítulos. Há
certas experiências que só se pode compreender quando acontecem com você, então
é melhor encarar de olhos bem abertos (haha, sambei com esse jogo de palavras,
mas você só vai entender isso depois.). Beijos, sociedade.



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